Os Cisnes Negros e os Rinocerontes Cinzentos

Para descrever a chegada da pandemia de coronavírus, é comum chamá-la de “Cisne Negro”, conceito criado por Nassim Nicholas Taleb para descrever eventos imprevisíveis, raros e catastróficos que afetam o nosso pálido ponto azul de tempos em tempos.


A Primeira Guerra Mundial, o Crash da Bolsa de 1929, os ataques terroristas de 11/09 e a Crise Econômica de 2008 são exemplos que se encaixam perfeitamente nesta categoria.
A Pandemia causada pelo COVID-19 não.


O próprio Taleb desfaz a ideia de que este evento é um Cisne Negro. Não só ele, mas também Bill Gates, Barack Obama, Laurie Garrett, e outros, já haviam compartilhado com o mundo anos atrás, com grande precisão, a crise que estamos passando. 


A Pandemia, da forma que aconteceu, é um tipo de evento que já havia sido retratado de forma muito precisa em livros de ficção e não ficção, artigos científicos e até mesmo filmes. São narrativas que descrevem como os primeiros alertas podem ser ignorados e ações relativamente simples de contenção teriam sido capazes de poupar um número incalculável de vidas e de economizar trilhões de dólares gastos no combate aos efeitos do novo coronavírus, no processo. 


Se tivéssemos todos começado a usar máscaras em janeiro, diz Taleb, nada disso teria acontecido.
Eventos previsíveis como esse, de grande risco e impacto para o nosso planeta que são convenientemente e, talvez, surpreendentemente ignorados têm nome. Eles são chamados de Rinocerontes Cinzentos (com o perdão dos biólogos e zoólogos brasileiros, que preferem chamar essa espécie de Rinoceronte-Negro).


A crise causada pelas mudanças climáticas, por exemplo, faz parte deste tipo de eventos. Ela foi prevista de forma bastante detalhada, está se movendo lenta e inexoravelmente, oferece um risco imenso e pode ter tem um impacto enorme sobre o nosso planeta – e, até o momento, esse conhecimento ainda não produziu ações decisivas e mudanças aceitáveis no nosso comportamento, tendo sido quase ignorada por uma boa parte das lideranças globais.


Mas, por que temos dificuldade de conectar essas visualizações dos riscos e desafios que futuro pode produzir com ações coordenadas que possam ajudar a prevenir e controlar os efeitos negativos que essas mudanças podem causar?


Talvez a explicação esteja em um estudo feito em 2008 pelos psicólogos Hal Ersner-Hershfield e Brian Knutson, da Universidade de Stanford. 


Ao utilizar um equipamento de ressonância magnética em voluntários, eles notaram que, quando pensamos sobre nós mesmos, uma parte do cérebro chamada córtex pré-frontal é ativada.


Quando os voluntários eram estimulados a pensar em pessoas próximas – um parente, seus filhos, o marido ou a esposa, por exemplo, o córtex pré-frontal começava a ser desativado e outras áreas do cérebro começavam a ser estimuladas. E, ao serem convidados a pensar em pessoas completamente estranhas e distantes – um trabalhador numa fábrica de calçados na Indonésia, por exemplo – esse efeito era ainda mais notável: o córtex pré-frontal era totalmente desligado e uma área diferente do cérebro entrava em ação.


É aí que vem a descoberta que pode nos ajudar a entender porque somos tão vulneráveis aos Rinocerontes Cinzentos.


Ao estimular os voluntários a pensarem neles mesmos num futuro distante, Ersner-Hershfield e Knutson descobriram que o córtex pré-frontal era desligado completamente e a área estimulada quando pensávamos em completos estranhos era ativada.


Com isso os pesquisadores concluíram que a pessoa possível que podemos nos tornar no futuro é percebida pelo nosso cérebro da mesma forma que seria percebida uma pessoa distante, uma completa estranha. Quanto mais nos projetamos no futuro, a pessoa que iremos nos tornar estará cada vez mais distante – e a capacidade de nos empatizar com ela será cada vez menor. É como se essa pessoa não fosse nós mesmos.


É por isso, concluem os pesquisadores, que temos dificuldade em fazer dietas, consultas de medicina preventiva, como exames de mama e próstata ou economizar para a aposentadoria. Temos muita dificuldade natural em associar a pessoa que somos no momento presente com aquela que habita um futuro ainda distante. 
E é por isso também que, como organizações, temos dificuldade de nos preparar para eventos que têm potencial para trazer grandes consequências para a nossa sociedade. 


O COVID-19 é um arauto de futuras crises, sejam elas da saúde, econômicas ou mesmo tecnológicas, que são uma consequência do mundo profundamente interconectado onde eventos não-lineares – no caso, a conexão entre os mercados de animais vivos na China e as viagens aéreas internacionais – têm um potencial de demolir estruturas sólidas, destroçar paradigmas e mudar a sociedade em questão de semanas. Algumas delas serão imprevisíveis e de grande impacto. Outras serão previsíveis, de impacto profundo, mas evitáveis.


Será que seremos capazes de ler os sinais e sublimar a forma que nossos cérebros são construídos, superando nossas limitações e fazendo com que essas previsões produzam ações rápidas, coordenadas e incisivas?


Ou será que, aos nossos olhos, todos os Rinocerontes Cinzentos vão continuar se parecendo com Cisnes Negros?


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