As Ruas de Dubai e as Tecnologias Invisíveis.

Em 2005 eu me mudei para Dubai.


Ao chegar não fazia a menor ideia de que aquela aventura iria se transformar em mais de uma década de vida no Oriente Médio. Uma jornada cheia de experiências únicas e extraordinárias.

Uma das mais marcantes aconteceu um pouco depois da minha chegada.


Logo que cheguei, aluguei um carro e passava um bom tempo me aventurando pelas ruas e avenidas do emirado. Lembro que, no começo, uma das partes favoritas era olhar para as placas de trânsito, que estavam escritas em inglês e em árabe! No início aquelas placas escritas numa língua exótica, indecifrável, eram um símbolo poderoso da experiência única que eu estava vivendo, um lembrete da distância enorme que me separava da minha vida anterior e que parecia me mandar uma mensagem clara: olha só onde você veio parar, Guilherme!


Mas, eis que a natureza humana entra em ação e, depois de algumas semanas, a novidade foi perdendo o seu impacto e eu me dei conta que já não registrava a parte que estava escrita em árabe nas placas. Se perguntado depois, eu chegava a ter dificuldade para lembrar se elas estavam escritas em outra língua que não fosse o inglês.


O extraordinário havia se tornado corriqueiro e depois, quase num piscar de olhos, invisível.


Nas minhas explorações de cenários futuros e da construção eu me deparei com um fenômeno semelhante, fundamental para entender como funciona a nossa relação com a tecnologia e como isso afeta a criação do nosso amanhã. 


Ele é chamado de Odd Paradox - o Paradoxo Estranho.


O Paradoxo Estranho descreve que, assim que novas tecnologias são inventadas e são adotadas pela maioria das pessoas, elas se tornam invisíveis para nós. Assim como os exóticos escritos em árabe nas placas das ruas e estradas do Golfo que capturavam minha atenção.


Quer ver um exemplo?


Muito provavelmente você está lendo esse texto utilizando um: estamos falando telefone celular - ou smartphone, para os mais íntimos.


Até um passado recente, o celular era um objeto que pertencia ao mundo da ficção científica. Hoje não conseguimos imaginar nossas vidas sem ele. Sua disponibilidade e inúmeras funcionalidades estão tão associadas à nossa vida contemporânea que hoje é impossível imaginar a nossa existência sem sua presença.


É aí que o Paradoxo Estranho entra em ação.


Quando foi a última vez que qualquer um de nós parou para pensar sobre a capacidade dessa peça extraordinária de tecnologia que nós temos nas nossas mãos? Que nos oferece acesso instantâneo - através de som e imagem - a quase todas as pessoas do mundo, nos conectando com todo o conhecimento humano, recebemos notícias, temos um mapa que não só nos guia pelas nossas ruas e estradas, mas nos ajuda a evitar o tráfego. Ele também é uma câmera fotográfica, filmadora, calculadora, agência bancária e também um guru de meditação e personal trainer. Um aparelho onde jogamos videogames, assistimos a todos filmes e séries que podemos imaginar e ouvir quase todas as músicas que já foram produzidas, onde podemos comprar qualquer produto ou acessar qualquer serviço criado pelos seres humanos além outras funcionalidades que já existem e outras que estão sendo inventadas enquanto pensamos sobre assunto.


Mas quanto tempo demorou para que o maravilhamento que todas essas funções oferecem começasse a se reduzir e o uso se tornasse mundano, corriqueiro?


Quase nada.


Hoje em dia dedicamos muito mais tempo nos preocupando com a duração da bateria dos nossos smartphones do que pensando nas transformações profundas que estes artefatos tecnológicos trouxeram para as nossas vidas.


Mas o celular é só um exemplo de como o Paradoxo Estranho se manifesta. Vivemos em um mundo onde as conquistas científicas e tecnológicas ultrapassam nossa imaginação, mas onde elas se tornam familiares - e invisíveis - cada vez mais rápido. Um mundo onde carros que estacionam sozinhos, de robôs construindo carros e auxiliando em cirurgias, onde inteligências artificiais fazem investimentos, diagnósticos médicos e escrevem notícias, em que podemos nos conectar na internet enquanto viajamos em um vôo comercial, onde tornou-se comum foguetes decolarem, pousarem e serem reutilizados, em que relógios de pulso monitoram nossa saúde, onde ferramentas de videoconferência nos permitem trabalhar - e colaborar - de qualquer lugar do planeta.


O futuro já chegou, mas parece que nós estamos muito ocupados com o nosso cotidiano para prestar atenção nele.


Algumas previsões calculam que os próximos 20 anos vão trazer mais mudanças do que os últimos 2000 anos da história humana - e o ritmo da criação e adoção de novas tecnologias se acelera cada vez mais. Essas mudanças incluem tecnologias emergentes como computadores quânticos, trilhões de vezes mais rápidos do que os computadores mais poderosos da atualidade, cérebros conectados com a internet que nos permitirão acessar qualquer informação e aprender instantaneamente, veículos completamente autônomos nos transportando e transportando nossas cargas por terra, água e ar, tecnologias de realidade virtual capazes de gerar experiências indistinguíveis da nossa realidade física. A nanotecnologia sendo utilizada para criar máquinas miniaturizadas que poderão ser inseridas no corpo humano para monitorar a saúde e tratar doenças, o prolongamento da duração de nossas vidas e a utilização de ferramentas de manipulação genética para transformar não só a natureza, mas também o próprio ser humano, nos tornando mais resistentes, fortes e inteligentes. E essas são apenas algumas possibilidades que estão se materializando. A lista não para de crescer. 


O Paradoxo Estranho cria uma familiaridade apressada e arriscada, que pode nos tornar insensíveis às consequências de abraçar o novo, ignorando suas implicações éticas e morais e seu impacto social, econômico e ambiental no processo.


Por isso é tão importante que fiquemos atentos não só ao surgimento de novas tecnologias, mas principalmente à maneira com que as adotamos e a velocidade cada vez maior com que elas se tornam corriqueiras - ou invisíveis. 


Como um texto em árabe que rapidamente deixou de ser percebido das placas de trânsito do Oriente Médio.

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